terça-feira, 14 de setembro de 2010

'Lar doce lar'

Quem é aquela no me olhando do outro sofá?
O estranhamento com pessoas de outros países é natural, mas e quando isso acontece com as pessoas que costumávamos conviver, que tanto amávamos, enfim, que não eram estranhas para nós?

Depois de uma temporada fora do país é possível não reconhecer os nossos conhecidos (e vale lembrar que a recíproca também acontece).
Vejo a minha mãe sentadinha na sala, me olhando com esperança nos olhos, quase que balbuciando um
'onde está a minha filha?' e não sei o que dizer. Afinal, onde ela está? Como trazê-la de volta, uma vez que não chegou junto comigo e toda a bagagem trazida para cá?

Talvez a tal Juliana tenha ficado na Inglaterra e essa que aqui vos fala, ainda que no Brasil, sente falta de Brighton e todas as dificuldades encontradas por lá.
A saudade dos entes queridos justifica  claramente a volta para casa, mas uma vez sem a sensação de 'lar doce lar' é difícil querer os antigos problemas ao invés de novos ou distantes então...

Vale à pena voltar

Direto e simples: o retorno é complicado. Depois de um intercâmbio ou uma viagem relativamente longa no exterior, a fase de adaptação de volta ao país de origem vai depender da estrutura pessoal de cada um, mas também das mudanças ocorridas no ambiente que deixamos 'para trás'.

Aviso: se você viajou tentando fugir de alguma coisa, pensando que iria 'se livrar' das responsabilidades do lado de cá, eu digo que, no máximo, elas podem ter ficado de stand by, mas muito provavelmente estarão ainda maiores quando você aterrizar.

A saudade acumulou? Os deveres também. Recomeçar é, geralmente, mais difícil do que começar, por isso esteja preparado para abrir as gavetas e encontrar muitas agendas inacabadas, muita roupa velha que precisa ser lavada. Imperativo: Não será fácil!

Em suma, pode ser que nada tenha mudado e seja difícil lidar com isso, mas não se surpreenda também, se muitas coisas estiverem fora do lugar e você tiver que achar outro canto para ficar ou mesmo se algumas pessoas não estiverem mais por aqui. Os seus braços ficarão abertos esperando aquele abraço e a vontade de fugir poder vir à tona de novo, mas aí já é demais, não?
Tenha foco: Lembre-se de todos os 'welcomes' que você irá ouvir e de todas as pessoas que esperavam e te recebem aqui. Eles te darão força para que o seu novo eu entre nos trilhos de cá.

Chega de 'bicos'! Se você foi daquele que fez de tudo um pouco para se sustentar no exterior, lembre-se que no seu país 'são outros quinhentos'...Aqui a coisa é 'em Real'. Os dólares, libras e Euros  ficaram para trás... Segura a onda e a graninha no bolso. Você, provavelmente deve ter que procurar um emprego e se recolocar no mercado de trabalho é algo que requer tempo e paciência.

Cada qual com o seu motivo: ou porque o visto expirou, por falta de grana, por saudade, por medo, enfim... É hora de voltar e tem que se crer que vale à pena.  Ainda que sinta desejo de viajar de novo, não se desespere, esse mix de sentimentos é normal, mas a sua própria mudança interior te ajudará a superar a dificuldade de encontrar tantas ou tão poucas mudanças por aqui. 

E o tic tac do relógio? Se acostumar com o fuso horário leva um tempinho, mas ora, até jogador de futebol consegue! O que posso dizer é que a fase de adaptação vai muito além disso, pois as pedras rolam no meio do caminho. E aí, vai encarar?

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Packing

Mudar é tão necessário quanto difícil e fazer as malas é uma das árduas tarefas que consomem tempo e requerem organização. Mas como colocar as coisas no lugar quando a mente está tão fora de ordem?

Para 'passageiro de primeira viagem' esse processo pode ser ainda mais longo e penoso. Uma vez empacotado o quarto do Brasil nas malas levadas para o exterior, como deixá-lo por lá?  Há que se ter muito desprendimento, mas também discernimento sobre o que é REALMENTE necessário.

Alguém me disse: "Emagreça! Venha leve! Faça com as malas o que não consegue fazer com o corpo..."rs A piada não me caiu muito bem, mas tem um fundo de razão...Ou não?

Como o ser humano é mesquinho... Cadê o tal lance de que o que vale é a experiência...Isso ninguém te tira? Na hora de voltar é difícil querer só levar lembranças, ainda mais quando a memória não é das melhores. Enfim, a dúvida é necessária, mas a maré de questionamentos nos leva a pedir opinião de tanta gente, que a confusão fica ainda maior. E os conselhos são os mais variados:
" Deixa tudo- comece uma nova vida!"
" Traga muuuitos souvenirs, afinal, você não sabe quando voltará!"
"Gaste com você e traga apenas cartão postal para todo mundo!"
"O que importa é ter você de volta, mas umas lembrançinhas são sempre bem vindas"
"Caia na real! Você foi aí pra estudar, todo mundo sabe disso e ninguém vai te cobrar nada!"
"Junte todo o dinheiro que puder porque quando chegar aqui estará desempregada."
E por aí vai...
O que fazer com tanto palpite se a peneira deixa cair todos nas minhas mãos? Tenho seis dias para descobrir e agora é comigo: aliás, sempre foi e será!

Essa última semana deveria ser de paz e tranquilidade (e quanto a isso todos estão de acordo), entretanto, não é fácil conter a ansiedade e escolher os melhores caminhos sem deixar nada para trás, já bastam as PESSOAS que ficam e essas, meu Deus, são insubstituíveis!!

terça-feira, 17 de agosto de 2010

'Vida que segue'

 A gente pode perder tempo, mas ganha muito conhecimento. No exterior estão todos buscando algo bem específico: melhorar o inglês, conhecer mais do mundo, relaxar, estudar, trabalhar ou, como eu, tudo isso e mais um pouco.
Portanto, a não ser que fique trancado no quarto, 'preso' no computador, fazer qualquer coisa é uma boa escolha. Isso vai de trabalhar em cargos que jamais cogitou até ir a uma balada sozinho, porque durante uma simples caminhada o inglês vai entrando pelos poros e, não somente ele, mas outras línguas. 

O estranhamento gera curiosidade e esta, por sua vez, uma incrível oportunidade de ser feliz. Pode parecer exagero, mas não é. Ainda que a tristeza da saudade esteja de pano de fundo, a alegria pelas pequenas coisas preenche grande parte do tempo. Puxar assunto com um desconhecido passa a ser um hábito, não mais uma loucura. Definitivamente sentirei falta disso quando for embora...

 Certa vez um professor daqui disse:' A Juliana pode fazer papel de maluca, mas aprende bem o inglês! Enquanto a maioria enche a cara no pub, ela está conversando com o bando de britânico bêbado que se encontra por lá. E esse inglês não é fácil de pegar!' ( k, não foi exatamente assim, mas ainda não sou tradutora juramentada, então me deêm um desconto).

 Já sei que sentirei falta de muita coisa e essa é uma delas: vivendo fora apreciamos mais facilmente a beleza das tais 'pequenas coisas' e é difícil passar por momentos de tédio. Há sempre um lugar, uma rua, muitas pessoas e palavras para se conhecer. Cada conversa, por mais chata ou ridícula, é uma aula e tanto!

Ainda que não tenha a fantástica desculpa de estar treinando o meu inglês vou tomar conta para que continue com olhos de ver ao voltar para a minha terra. Sei que será difícil nao me preocupar com o que os outros pensam, até porque não são bem outros, são 'os' outros que tanto considero. 

Aqui tanto faz quem me olha, não sabem quem sou, não mais verei e, ainda por cima, tenho mais inglês para me preocupar do que pensar no que pensam de mim! Do lado de fora está todo mundo no mesmo barco: preocupado com o seu crescimento (seja cultural, linguístico ou de entretenimento). Isso alivia um pouco a barra daqueles que ainda não apertaram o botão do F-SE quando se trata da opinião alheia. 

Não será fácil voltar a uma rotina muito mais cheia do mesmo, porque aqui o novo nunca deixa de ser evidente. Tenho pouco mais do que 20 dias para treinar a minha paciência e emperequetar a minha capacidade de percepção. Daí pra frente é 'vida que segue...' Dizem que essa experiência vai mudar a minha vida para sempre. Não acho que não é por aí. Acredito que do lado de lá está tudo igual, mas eu mal posso esperar para conhecer o meu novo eu!

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

And so it is...

De uma coisa eu tenho certeza. Os idosos parecem ser muito mais felizes na Inglaterra e, acredito eu, em toda a Europa. Apesar do 'abandono' e desestrutura familiar, a força de viver dessa galera é algo de se admirar .Pode parecer  normal para os britânicos, mas a olhos latinos isso é tudo muito novo. Não apenas os mais velhos como também os deficientes físicos e mentais levam praticamente o mesmo estilo de vida que as outras pessoas. Será isso 'o máximo' ou apenas o que deveria ser?

Ao passear pelo shopping se encontra gente de todas as idades, mas  é preciso ter cuidado para não ser atropelado por um cadeirante ou idoso: elas aceleram as 'motoquinhas'! Na praia não é diferente, todos parecem curtir a mesma onda e isso inclui o topless sem restrição de idade. Na biblioteca  o espanto é para todos os lados: crianças, adolescentes e idosos concentrados na leitura e estudo: dá gosto de ver! Pena que não estou fazendo o mesmo..Quem sabe depois de escrever esse post... Além disso vale lembrar que os chamados 'malucos'' não ficam trancados em seus lares ou casas de tratamento. Estão do seu lado, segurando o mesmo livro, ainda que de cabeça para baixo.

É claro que a estrutura local ajuda. Os ônibus têm um sistema de nivelamento com a calçada, que minimiza bastante a rotina daqueles que já vivenciam uma fase ou vida com tantas limitações. Além disso, por não viverem com seus familiares, os idosos mantêm viva a liberdade e independência que tanto sonharam conquistar na adolescência. O mesmo se aplica aqueles com necessidades especiais., a solidão e isolamento que vemos no Brasil, por exemplo, não acontece aqui. Na fila do supermercado ou do cinema você pode se admirar em ver que a pessoa atrás de você tem paralisia, mas não sofre dela e chegou até ali com o mesmo intuito que você.

Não á muito mais o que dizer. Para mim isso tudo é o máximo e deveria mesmo ser algo natural!

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Somewhere over the rainbow...

Para começo de conversa esse não é um post sobre Jane Austen, até porque vai além das conhecidas muralhas que cercam o orgulho e o preconceito.

Preciso perguntar: O que xongas quer dizer 'Orgulho gay'?

Segundo o Papa Gregório I o orgulho não deveria ser o oitavo, mas sim o primeiro dos sete pecados capitais, ainda assim, por algum motivo, essa palavra vem sendo usada de forma positiva. Nas Paradas gay mundo a fora a bandeira do orgulho gay é estendida e, mas talvez mal entendida pela maioria. Será que é isso mesmo que a galera está pedindo? Porque se fôr eu me retiro, visto a camisa da caretiçe, faço careta  e grito : Eca! Afinal de contas, na maré do preconceito a 'viadagem' é tida como puro pecado mesmo, né?

A Brighton Pride é a maior Parada gay da Inglaterra e reúne anualmente milhares de pessoas afim de mostrar a 'Real Brighton' em grande estilo. Em 2010 não foi diferente. Homossexuais e simpatizantes de várias cidades se reuniram em em nome da 'liberdade' e o evento, que conta com o apoio da mídia e órgãos do governo  foi transmitido ao vivo por redes de TV, rádio e websites de todo o mundo.


É uma espécie de Woodstock transexual. Os eventos são variados: shows, performances, festas paralelas, parque de diversão e,  é claro, o desfile e venda de acessórios, afinal de contas o foco mesmo é a imagem. Apesar de toda a motivação conceitual, inúmeras tendas de apoio psicológico, aconselhamento médico e explicativo, a Parada  mesmo é o seguinte: vá fantasiado, brinque de ser menino, menina, ou os dois se quiser, porque hoje você pode!

Mas e amanhã? Creio eu que a questão continua, assim como os complexos e desentendimentos também. E o orgulho, onde vai parar? 

Em algum lugar atrás do arco íris há muito mais do que um pote de ouro e legalidade, mas algumas pessoas querendo a pura naturalidade. Sei que eventos como este são um sucesso e garantia de muita risada, 
mas o riso tem que ter sentido, até mesmo para quem quer fazer papel de palhaço. Ou seja, com maquiagem, peruca ou pouca roupa, o dia a dia tem que ser o mais importante, afinal ser o que se é deve dar um orgulho e tanto. (Oops, my bad!)

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Trilha sonora

Friedrich Nietzsche disse: “Sem a música, a vida seria um erro.” Pois é, ás vezes eu me sinto errando, mas enquanto o não sobra grana para o I Pod a melhor forma de ouvir um som é andar. Isso mesmo! Na Inglaterra é melhor percorrer as esquinas do que as estações de rádio. Afinal de contas, você estará trocando Black Eyed Peas por Beatles. Vai dizer que não é um bom negócio?

Até pra quem não curte um som inglês a caminhada vale à pena. Isso porque são tantos músicos e cantores pelas ruas que é praticamente impossível não encontrar um que nos agrade. Eu diria que é impossível apenas um. Os artistas estão espalhados por todo lugar: pelos subways, ruas, praças, pontes e pontos turísticos, é claro.

Sei que se trata do velho mundo, mas ainda me impressiono com a habilidade musical do povo daqui. É muita quantidade e qualidade de som. Estava acostumada a encontrar apenas uma dessas coisas, agora tenho que escolher para onde olhar, ou melhor, ouvir!  Hoje entendo porque tantos dizem que vêm para cá 'fazer uma grana' tocando. Realmente dá pra viver, pois é mais do que 'polite' jogar uns trocados no chapéu ou case dos músicos é um hábito. Mas não basta ser bom, é necessário ter licença para tocar por aí.

Para os músicos de fora aviso que podem estranhar o interesse dos pedestres, em apreciar o trabalho apresentado. Ok, os artistas são demais, mas eu diria que isso sim que é público! Os aplausos vêm dos olhos atentos e comentários entre a platéia mutante. Ao invés de esperarem o retorno acústico, acho que os músicos daqui conseguem de fato perceber o retorno dos seus trabalhos e, nossa, deve ser uma sensação incrível!

Mesmo sem um mp3 posso dizer que a minha estada no Reino Unido tem uma trilha maravilhosa digna do prêmio mais cult da música. São tantas tons e timbres que não imaginava que iria conhecer: instrumentos e letras que não esperava ouvir, que o samba, meu samba enredo ficou lá pra trás, no discman antigo que o tempo levou e não traz mais.

Aqui eu ouço, aprovo, repito, recomendo e agradeço pelo privilégio de poder ouvir tanta riqueza de uma vez só.